10 agosto 2005

Bom dia, como está, passou bem?

À parte questões de educação, cortesia e boa convivência, não há realmente nenhuma razão especial para um vizinho me dizer bom dia nas escadas.

Na verdade, se no meu país há crianças nas fábricas e bancos de escola vazios; se os motoristas fumam dentro dos táxis; se os automobilistas não respeitam filas de trânsito e se metem à má-fila à frente de quem já lá está; se nos meus passeios há cocó de cão e rodas de jipes que só por serem de jipes têm de estar estacionadas de forma viril; se nas minhas ruas há carros parados em cima das passadeiras ou a obstruir passagens de carrinhos de bebés e cadeiras de rodas; se na minha cidade o Santana Lopes foi presidente de câmara; se no meu ecoponto há lixo orgânico; se nos meus contentores de lixo orgânico há vidro, plástico, papel, cartão e pilhas; se no meu governo o Santana Lopes foi primeiro ministro; se nas minhas auto-estradas se anda a 250 km/h; se das janelas dos automóveis saltam para o chão papéis e cascas de fruta; se no aeroporto da minha capital os portugueses fumam, mesmo sendo proibido, ao contrário do que fazem quando vão «lá fora»; se na minha televisão um conde hermafrodita e um actor porno se transformam em figuras nacionais; se num café da minha cidade a empregada recusa-se a lavar o biberão da filha da Simara; se na minha área profissional o jornal que mais sobe as vendas conta sobretudo estas histórias inúteis; se no partido que apesar de tudo mais respeito há um pretendente a dinossauro que duvida da existência de uma ditadura na Coreia do Norte; se noutro partido o Santana Lopes chegou a presidente; se nas minhas pontes há carros alterados a fazer corridas; se no clube de que gosto um presidente rico só fala de árbitros, perseguições e sistemas; se noutro clube de que gosto menos o director-geral diz «gánhemos» e pede que os sócios «estejem descansados» porque haverá ponta-de-lança novo; se numa empresa onde já trabalhei uma mulher não é aumentada dois anos porque teve um filho; se enquanto espero um barco não me dão lugar mesmo tendo um bebé ao colo; se três desses lugares são ocupados por um homem de camisola de alças que está a cortar as unhas dos pés à mulher de cabelo pintado de louro; se o Santana Lopes ainda ameaça voltar...

Se tudo isto e tanto mais, por que hei-de estranhar se um vizinho não me fala nas escadas do meu prédio?

13 comentários:

Rita disse...

Eh, pá, já me tinha esquecido da do corta unhas....
Belo post, caro.
Tás a ver como é giro ter esta coisa? Ainda por cima para quem escreve assim bem como tu.

Bacci!

Xano disse...

Obrigado. Preciso desses incentivos, com eles pode ser que não esteja mais dois anos sem escrever.

Beijos

Rosa disse...

Porque tudo tem que ter um princípio. Porque tal como é de pequenino que se torce o pepino, também é nas escadas do nosso prédio que se começa a mudar um país que vai de mal a pior.

E acho bem que escrevas por aqui, dando assim oportunidade ao pessoal que não lê jornais desportivos de apreciar a tua escrita :)

balzakiana disse...

è a primeira vez que aqui vanho e tenho a sorte de "cair" sobre um texto deste tamanho. Todas estas atitudes quase deixaram de me espantar, de tão triviais. Quando cheguei de França, após vários anos, todas essas situações me davam pele de galinha... à excepção do Santana Lopes que para mim nasceu na Figueira. Continue a escrever assim e cá estarei todos os dias.

Xano disse...

Segundo julgo saber, estou em presença de um comentário da mãe da caipira. Não conhecendo nenhuma de vós a não ser por estas voltas bloguísticas, fico lisonjeado com a visita. Volte, bem haja!

Xano disse...

Ah, bolas! Olá Rosa. Se quiseres ler amanhã a crónica da anunciada vitória do Sporting...;-)

João disse...

Pá, pois, mas e aqueles vizinhos muita melgas que cumprimentam e não descolam? Ou, numa versão mais transportes públicos, e aquelas velhinhas que começam a falar connosco e a gente só quer encostar a testa ao vidro e dormir um bocadinho? A mim, no outro dia, perguntaram-me pelos incêndios, incluindo um que houve «já há uns anos» ali naquela igreja «muito bonita» da Praça da Figueira. Apre!

Patrícia disse...

É por essas e por outras que eu prefiro sempre o jovial e inócuo «Olá».

João disse...

A empregada e a Simara e o biberão e o quê?

Rita disse...

O 24 linhas não chega a todas as redacções.... :P

innocent bystander disse...

Tou com a João, também tenho uma vizinha muito melga, que não se cala mesmo que eu esteja com sacos de supermercado pesadíssimos, as chaves na boca e a segurar a porta do elevador com um pé! Era tão bom que ela nem me dissesse bom dia!
E não é que já estás cheio de leitores? Escreve, escreve.

C.A. disse...

Maravilhoso! (digo eu esfregando as mãos de contentamento)
Vou cá voltar! (acrescento eu esfregando as mãos de contentamento)
Temos homem! (grito eu, aos pombos do meu telhado, esfregando as mãos de contentamento)

Davi Reis disse...

É verdade... tivemos o Santanás como Primeiro Ministro e presidente da CML... mas houve outro anticristo no seio da sociedade portuguesa, ou em parte sociologicamente representativa e significativa dela. Ele assemelhava-se a um suíno orwelliano e a comunidade a que presidia era a "família benfiquista".Esteve, nesse momento felizmente passado da história do clube, bem à vista a incapacidade crítica e analítica dos portugueses, neste particular, no tocante à escolha dos seus líderes. Estou obviamente a falar de Vale e Azevedo. Eu cá dei os meus 20 votos ao Luís Tadeu. Soares e Cavaco, duas personalidades tão contrastadas... Quem ganhará?

Um abraço fraterno