14 março 2008

Uma pala nos olhos dos governantes

Peço desculpa mas não me lembro do nome do senhor. Decorei que é governante e ouvi-o na rádio, a propósito dos 3 anos de governação Sócrates, dizer qualquer coisa como isto (associação livre de ideias): «Num balanço, se temos coisas boas para assinalar devemos concentrar-nos nelas. Também terá havido coisas menos boas, mas não devemos perder tempo com elas.»

É preciso comentários? Se sim, mandem!

Porque pensar faz bem, paremos um pouco

«Com esta geração que nos governa nem Ceuta teríamos conquistado. Os custos seriam sempre superiores aos proveitos imediatos. Fazia-se um estudo e não se ia»

Miguel Real, autor do livro A Morte de Portugal - escritor, professor, ensaísta, em entrevista à Visão

Trata-se, apenas, da pérola que mais me fez soar campainhas de alarme na consciência quando li a entrevista. Mas seguramente mais de dois terços das afirmações polémicas deste senhor fazem-nos pensar. E pensar, mesmo que pouco mais possamos fazer aos dias úteis e não nos sobre tempo nos dias de folga, ainda não paga imposto.

10 março 2008

Eu sei que vais ler

Lisboa, 10 de Março de 2008

Olá.

O teu neto está grande, grande. Esperto, o rapaz, desenrascado. Tem alguns medos e muitas certezas. Gosta de animação e vai ter uma festa logo à tardinha, com amigos dele, amigos dos pais e gente da família, claro. Quatro anos, quatro. Consegues vê-lo da fotografia da sala, não é? Acho que ele não te conhecerá se te encontrar na rua, mas sabe muito bem quem és.

Estive todo o dia à tua espera, ontem. Sim, eu sei - há três anos, há três noves de Março que sei que não podes vir. Mas eu espero, que queres? Espero sempre. A festa, afinal, é tua. Foi tua a dor, tua a alegria, tua a energia. Eu só saí para um mundo nem sempre bonito mas que felizmente tem conseguido ser meu amigo. E como não vens não há festa. Só houve 30 festas. Se calhar chegam. Depois nasce outro dia e chega a outra festa, que também só viste uma vez.

Já sei que não vais aparecer hoje. Por isso te tenho aqui, agora, enovelada no nó que me tapa a garganta. Prometi chorar-te sempre que quiser. Mas nas mais das vezes não consigo. Fica só o nó. E soltam-se os dedos.

Beijo doce, como sempre

Teu filho, Xano

28 fevereiro 2008

Dos cheiros e dos livros

Vamos ao fim da rua, vamos ao fim do Mundo


O meu pai mudou o rádio de sítio por aqueles dias. Queria apanhar «uma rádio nova só de informação» de que ouvira falar. Nesse tempo, captar ondas do éter em Queluz nem sempre era fácil. Encontrou finalmente um sítio. Era numa divisão comum do apartamento que fazia ao mesmo tempo de corredor e hall. Paciência - era ali que se ouvia a TSF, em 102.7.

Ainda pirata mas já tão boa, tão diferente. Lembro que era o tempo do monopólio da TV estatal. Eu era novito, acho que ainda não fazia a barba. Mas sei perfeitamente que o bichinho do jornalismo, nascido sobre páginas de jornal, se alimentou rapidamente daquela nova forma de intervir. Cresceu, desenvolveu-se, jornalista sou hoje.

Como sucede com tudo e todos, não falta quem diga que a TSF «está cada vez pior». Tirando no que respeita ao Benfica, ao Sporting e a meia dúzia de restaurantes, normalmente isto é só vontade de dizer mal e mania de que «no nosso tempo é que era».

20 anos depois eu e o meu pai - hoje no Alentejo com direito a frequência regional - já não precisamos de mudar o rádio de sítio (a não ser, no meu caso, o do despertador, de vez em quando). É tudo automático. Pela parte que me toca, 89.5 continua na posição 1 em casa e no carro.

Parabéns, TSF.

26 fevereiro 2008

O mapa das vertigens

Há as vertigens. Depois há os momentos em que planamos, leves e seguros, momentos em que reconhecemos o que está lá em baixo e gostamos de andar lá em cima, na convicção de uma aterragem feliz.

Depois há outra vez as vertigens. Rápidas, vorazes, alucinantes.

Há as esperanças e os medos. A esperança de já sermos melhores, agora que sabemos mais de nós, e o medo de nunca o conseguirmos ser, agora que continuamos um mistério tão grande.

Há as certezas dos afectos eternos e as incertezas do mapa de nós que dificilmente decifraremos em vida e certamente nos será vedado depois da morte, porque mortos estaremos.

Há o consolo de um abraço, o conforto de uma palavra ou de um silêncio. Há o temor de um abraço, o desconforto das palavras e dos silêncios.

Há uma corda bamba sobre a qual, loucos por nós próprios, até chegamos a correr. Depois há uma estrada firme onde mal nos atrevemos a dar um passo com medo que a terra se abra de repente. Ou se reabra de repente.

Há âncoras às quais nos agarramos e sabemos que não nos deixarão ir ao fundo, por mais que o mar nos açoite. Há ondas que nos levam sem percebermos quando nos enrolaram ou quando já somos só uma parte da espuma que abraça a areia das praias.

Há muito, há tanto! E por haver tanto, por haver muito, há que caminhar. Nadar, flutuar, planar e voar.

Aterraremos todos no mesmo sítio. Já sem olhos, então, para ler o nosso mapa.

20 fevereiro 2008

Amor é...

... reconhecermo-nos numa ou noutra música e, mais do que isso, ouvir o compositor no rádio, dias depois, falar dela - da música - exactamente da forma que a sentimos. Há gente que escreve e canta e nos atravessa os dias. Os bons, os maus, os mais ou menos. Podem estar quietos nas estantes durante meses, mas voltam sempre que é preciso. Não foi a primeira vez que o Godinho me fez a banda sonora. Não terá sido certamente a última. Quem disse que as Noites Passadas não se reinventam?

03 fevereiro 2008

2.º andar A/ 4.º andar B

«... mas tem cuidado,
trata-o bem,
muito bem de mansinho
que ainda agora
vai pisar outro caminho»

Para ti (sabes quem és?)

Que rua tão torta e tão longa, a do amor
Que vento tão forte lá sopra, é o do amor
Por vezes parece uma rua assombrada
Com sombras de bruxa fazendo de fada

Que faço eu na rua deserta do amor
Não há uma só porta aberta pró amor
Por vezes lá se abre uma frincha de nada
Na porta do amor que eu queria escancarada

Sérgio Godinho, «Amores de Marta»

Mais leituras aqui

As cancelas

O domingo é um péssimo dia para tentarmos apanhar os restos de nós que vamos deixando espalhados em casas, nos carros, nos caminhos que fazemos. Esses mesmo - nos quais encontramos tantas cancelas fechadas nas encruzilhadas. As cancelas que abrimos de olhos fechados, a sonhar, e estão presas com ferrolhos quando acordamos. Seja domingo ou segunda-feira.

02 fevereiro 2008

Puuuuuuuxa!



Não era fácil apostar nesta moça quando ela era a Floribella. Mas juro que o fiz, bem como mais dois ou três amigos. A FHM esgotou, diz-me um deles... Cum cacete!

Foto daqui

01 fevereiro 2008

É a vida, já dizia o outro

É espantosa a rapidez com que algumas coisas passam e incrível a lentidão com que algumas coisas não passam. Isto é La Palisse?

28 janeiro 2008

Sinais

Percebe-se que estamos inseguros quando, mesmo sabendo que nadamos com água pela cintura, deixamos de ser capazes de ler os sinais que nos enviam. Ou, sobretudo, os que não nos enviam, achando aqui e além que um sorriso vale mais que o momento, ou que um olhar traz algo que queremos, ou julgamos querer, quando se limita a ser um olhar.

Percebe-se que estamos inseguros quando queremos muitas coisas ao mesmo tempo e desconfiamos que queremos algumas delas precisamente porque não acontecem, essas e outras.

Percebe-se muita coisa e isso às vezes serve-nos de tão pouco.

26 janeiro 2008

Se a noite falasse...

... nem era preciso álcool ou drogas. Bastava alguém reparar no meu ar aflito enquanto procuro no trânsito um carro como o teu. O teu carro, que quase sempre sei onde está, que às vezes está tão perto. Era suficiente alguém perceber que vejo a tua sombra a cada recorte que as luzes me oferecem reflectido no chão que dorme, pardo, negro. Tem sempre cabelos a beijar os ombros, esta sombra - ancas, botas, um cigarro e uma mão que o agarra para depois, indicador e médio a fumegar nas pontas, ajeitar a madeixa de cabelo que também quer acariciar a face. Olho, passo, espreito outra vez e é só mais uma sombra. Quantas faltarão até seres tu?

25 janeiro 2008

Eles estão de volta

E porque há quase sempre boas notícias numa Fnac perto de nós...



«Jukebox», de Cat Power, já saiu
«Nove e Meia no Maria Matos», do melhor de sempre, sai na terça-feira


Livro de instruções

Não, a vida não se retomou por inteiro. Vai-se retomando e re-estragando dia a dia, semana a semana. Deve ser mesmo assim, se calhar só eu é que não sabia. Talvez deva mesmo ler os livros todos onde tudo vem escrito e descrito e dissecado e onde já mistério nenhum da vida tem autorização de entrar. Mas pensando bem, se alguma vez os ler será sempre para esquecê-los no minuto seguinte. Não me formatarão.

RETOMA

Porque a vida também é feita de recomeços, apeteceu-me voltar aqui. Não sei quantas vezes. Aquelas que apetecerem; como hoje.

15 novembro 2007

Nunca largues o piano

Foto Attambur.com
Terça-feira, Coliseu. A melhor sala, um dos melhores músicos. E já há concerto-extra marcado para quem se distraiu com os bilhetes.
Até lá!

13 novembro 2007

A voz

Há vozes mágicas. De repente equilibramo-nos por segundos num fio de palavras e vemos, lá ao fundo, uma luz. Uma luzinha. Mas ela está lá. Acesa.