31 agosto 2005

Encantos

Este poeta eu sei que nunca me deixaria ficar mal. Mesmo que quisesse um dia ser candidato à presidência da República. Foi aqui que soube da existência de um grupo de admiradores de Jorge Palma que começou a juntar-se para conversar, cantar, estar. E tudo começou no Palma. Acho encantador, penso que se calhar um dia arrisco aparecer por lá e vou adormecer com esta letra a embalar-me:

Andava eu sem ter onde cair vivo
Fui procurar abrigo nas frases estudadas do senhor doutor
Ai de mim não era nada daquilo que eu queria
Ninguém se compreendia e eu vi que a coisa ia de mal a pior

Na terra dos sonhos, podes ser quem tu és, ninguém te leva a mal
Na terra dos sonhos toda a gente trata a gente toda por igual
Na terra dos sonhos não há pó nas entrelinhas, ninguém se pode enganar
Abre bem os olhos, escuta bem o coração, se é que queres ir para lá morar

Andava eu sózinho a tremer de frio
Fui procurar calor e ternura nos braços de uma mulher
Mas esqueci-me de lhe dar também um pouco de atenção
E a minha solidão não me largou da mão nem um minuto sequer

Na terra dos sonhos, podes ser quem tu és, ninguém te leva a mal
Na terra dos sonhos toda a gente trata a gente toda por igual
Na terra dos sonhos não há pó nas entrelinhas, ninguém se pode enganar
Abre bem os olhos, escuta bem o coração, se é que queres ir para lá morar

Se queres ver o Mundo inteiro à tua altura
Tens de olhar para fora, sem esqueceres que dentro é que é o teu lugar
E se às duas por três vires que perdeste o balanço
Não penses em descanso, está ao teu alcance, tens de o reencontrar

Na terra dos sonhos...

30 agosto 2005

Como a pressa nos faz parvos

Pronto, confesso: não ouvi toda a declaração de Manuel Alegre. Só algumas partes, por sinal tocantes. Confiei no que disse o repórter da televisão: «Manuel Alegre é candidato e adversário de Mário Soares». Ouvi o comentador de serviço. Reagi na hora, assim bem ao estilo da sociedade da internet. Está no post abaixo. Acabei de escrever e estava o mesmo repórter a entrevistar Alegre. Que afinal disse discordar da candidatura de Soares, mas frisou que não iria fracturar a esquerda, tendo por isso decidido não se candidatar. Podia apagar o post de baixo e tudo bem, mas não quero. É um «mea culpa». Afinal, fui tão precipitado como o repórter de televisão. Mas pronto, pelo menos percebi o Português e não continuei, depois de ouvir Alegre pela segunda vez, a dizer que «ele ainda não decidiu se se candidata ou não».

As palavras do poeta

Manuel Alegre é candidato à presidência. Resta saber se vai a votos. Para já segue na frente porque falou muito bem. Porque é um poeta e sabe usar as palavras. Porque até em «politiquinha» (a política que existe, a que praticamos, aquela em que só se contam espingardas e não se debatem ideias), é sempre importante «alguém que diz não». Mesmo que depois de amanhã desista em nome da politiquinha dos outros.

Lá vêm eles!...


Adeus Lisboa da calmaria; adeus lugares de estacionamento; adeus vias desimpedidas; adeus restaurantes com mesa à sexta e ao sábado à noite; adeus domingos com menos fatos-de-treino e crucifixos a sair das camisolas de alças; adeus IC 19 quase saudável; adeus, até ao próximo Agosto. Cá estaremos, firmes, enquanto eles, que amanhã voltam como formiguinhas, rumarão de novo aos Algarves. Assim a crise desacelere...

Mau gosto

Há dias assim: andava eu desde manhã cedo à procura de um motivo para escrever aqui uma piada brejeira, fácil e de mau gosto quando o DN me ajudou através de uma simples breve: o novo director da «New Yorker» chama-se Louis Cona.

Estão a ver a cena se um famoso comentador desportivo fosse leitor da revista com os melhores desenhos do Mundo? Estou a falar daquele que uma vez chamou «Vaginadu» a um ganês do Leiria que respondia por Konadu. Pronto, já desabafei, prometo melhorar no próximo post...

29 agosto 2005

Os filhos da economia de mercado e os filhos da puta

A discussão ideológica fica para outra altura. Ou não, enfim, comentem o que quiserem. Queria só anotar que o «Diário do Povo», órgão oficial do Partido Comunista Chinês, e portanto da China, anunciou uma «campanha de purificação» da comunicação social. Livros, jornais e produtos audiovisuais vão ser, basicamente, alvos de censura, com castigos previstos para quem os venda e difunda.

O interessante da questão é que se isto se passasse em Cuba ou na Coreia do Norte teríamos o «mundo livre» num coro uníssono a condenar nova travessura de um estado comunista. Como se trata, pelo contrário, de um país «de enorme potencial», membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, com uma «economia de mercado fluorescente», um parceiro incontornável, o «tigre renascido da economia mundial» e etecetera e tal, está tudo mais ou menos OK. Ou seja: se fosse o Fidel ou o Kim Jong II, tínhamos bandido com cara e nome. Mas como se chama o primeiro ministro chinês, mesmo?...

27 agosto 2005

Hão-de chegar as fotos

Está mesmo a apetecer-me pôr aqui umas fotos de Veneza. E mais uma ou outra que trouxe de Itália. Mas ainda não tive tempo. Talvez logo à noite, talvez. Olha, se fosse o Ricardo já podia deitar mãos à obra: ficou em casa durante o fim-de-semana e protagonizou a pior notícia da semana para os benfiquistas: não joga no derby de Alvalade, dentro de 15 dias...

Isso é que eu gostava

A caminho da meia idade (bom, ainda um bocadito longe, pronto), não via com maus olhos um emprego que passasse por escrever meia página, uma vez por semana, a gozar e glosar o trabalho dos outros.

Não deve ser má vida: folheia-se uns jornais e umas revistas, topam-se as coisas mais fora do normal, escolhem-se uns ódios de estimação, mais umas embirraçõezinhas avulsas para compor o ramalhete e já está.

Depois só falta escrever. Esta parte é difícil, porque quem está tão à vontade para atirar pedras aos outros tem de ter sempre telhados de betão. E nem sempre tem, mas adiante. Adopta-se então um tom, escrevem-se uns caracteres, poucos, e a semana está ganha. Presume-se que com ordenados principescos, porque não é em vão que se atinge o estatuto de observador-Deus-infalível.

O pessoal que se dedica a esta faina tem um problema grave: como nunca ou raramente teve uma ideia na vida, embirra gratuitamente com quem faz algo um nadinha diferente do habitual. Mas percebe-se: afinal, uma mente de génio gastar semanas inteiras a ler os outros ignorantes...

26 agosto 2005

Viva

Claro que isto não interessa a quase ninguém, mas voltei. Já voltei anteontem, mas só agora tive tempo de dar aqui uma voltinha. Está tudo na mesma, sensivelmente, o que é sempre bom sinal.

Estive mesmo em Veneza. Andei de gôndola. Um dos meus companheiros disse que ficaria toda a vida a achar-se «urso» se tivesse estado lá sem experimentar a dita. Acho que ele tem razão. Daqui a nada volto com umas fotos, talvez.

23 agosto 2005

Rapidinha

Aqui é Trieste, ponta direita da parte superior da bota italiana, com terraço a dar para a Áustria e a Eslovénia. Já tirei uma fotografia ao lado de uma estátua do James Joyce em tamanho real. Parece que ele passou aqui uns tempos e gostava de cá estar. Tive sorte: há uns meses estive em Dublin, a terra dele, e também o deixei entrar numa foto para o meu álbum. Dá uma montagem gira para pregar com pioneses num quadro de cortiça. Agora só falta a coragem para o «Ulisses». Mas sei que lá chegarei. Juro a mim próprio.

Estou com pressa, sai esta rapidinha para pedir ajuda a eventuais especialistas do comportamento que passem por aqui: há dois dias, no aeroporto de Milão, ia com dois colegas portugueses apanhar um voo para Veneza (siiiim, amanhã, depois dos futebóis, acho que vou ter tempo de ver; e prometo, João, não tentar levar o carro até à Praça de São Marcos!); adiante, mostrei o cartão de embarque a seguir a uns espanhóis, o senhor da Alitália falava espanhol, disse «gracias» aos da frente, disse «gracias» aos de trás (os outros portugas que me acompanharam) e depois de olhar de relance para a minha foto no passaporte atirou um «thank you». Dúvida: isto é bom ou mau? Tenho ar de tunisino/turco/marroquino? Ou um distinto «je ne sais quoi» da Europa civilizada, onde para ele, italiano, se fala em inglês? Morrerei com a dúvida. «Ciao, belle»...

20 agosto 2005

18 anitos...

Não é que grame por aí além o Ricardo. Mas adoro este miúdo. Ele não precisava de dizer isto. Adoro-o:

«Queria deixar uma mensagem... Toda a gente comete erros e os adeptos não deviam assobiar o Ricardo, que já deu muito ao Sporting e vai continuar a dar»

João Moutinho, na TVI, após o Sporting, 2-Belenenses, 1 (no qual, para quem não sabe, o Ricardo refrangou à grande e à francesa!)

19 agosto 2005

Isto interessa a alguém?

Andava há uns dias na gaveta dos pendentes. Não sei se interessa a alguém, mas um pedido é um pedido, enfim. Cá vai:

Idiossincrasias - as 5 menos:
Gente que estaciona nos passeios e nas passadeiras
Gente que não apanha a merdinha feitinha pelo cãozinho numa rua que devia ser de todos
Cães no meio da rua sem açaime («não faz mal, não morde»... até ao dia em que o meu filhote levar uma dentada de um)
Fumadores que não percebem o óbvio – entre os direitos deles e os de quem não fuma, só uns podem prevalecer
Energúmenos que atiram lixo para o chão

Idiossincrasias - as 5 mais:
Sorrisos que incluam os olhos
Perfumes de mulher
Chinelos/havaianas em pés de mulher
Empregados/donos de cafés e restaurantes que me façam sentir em casa
Gente capaz de um gesto solidário, por ínfimo que seja ou pareça

5 albums: Xiiii, complica-se...
Bora lá (amanhã pode ser totalmente diferente):
Canto da Boca – Sérgio Godinho
Escritor de Canções – Sérgio Godinho
Só – Jorge Palma
Outras Palavras – Caetano Veloso
Under a Blood Red Sky – U2

5 canções:Isso atão... Como me posso lembrar agora? Vou tentar:
Espalhem a Notícia – Sérgio Godinho
Passos em Volta – Jorge Palma
Steal my Kisses – Ben Harper
She – Elvis Costello
Só Eu Sei – Juventude Leonina, versão estádio no ano do SuperMário

5 albums no IPOD (isso é aquilo que faz uma pessoa parecer um zombie no meio da rua mas não é um walkman? Não uso. Vamos para escolha de carro, como outros antes de mim)
Afinidades – Clã e Sérgio Godinho
Out of Season – Beth Gibbons and Rustin Man
Esperanza – Manu Chao
Um qualquer – Chico Buarque
Campolide – Sérgio Godinho

5MP3s na playlist (isto é músicas soltas outra vez, certo? No computador é mais palhaçada para rir ao fim da noite, tipo...)
Vinho Verde – Paulo Alexandre
E Depois do Adeus – Paulo de Carvalho (desta gosto mesmo à séria...)
Cabana – José Cid
Mula da Cooperativa – Max
Ontem ao Luar – Vicente Celestino (saudades...)

Os 5 blogs para onde isto segue:
Oh pá... Cheira-me que a pouca malta que conheço destas andanças já respondeu. Pega, Jo; Alex, um desafio?; São Bento, alinhas? Vá lá, Rosa; e alguém da Pais e Filhos. Iupi, consegui!

Dias felizes

É tarde, vou finalmente ver a lua que recomendam aqui. É sobretudo depois destes dias cheios e intensos (de trabalho, entenda-se com algum lamento à mistura) que tenho saudades de fumar. Ia saber bem, daqui a nada, com a janela do carro bem aberta a gozar os primeiros sopros de vento e esse ainda tímido frio que enfim nos veio aliviar a tortura que tem sido este Verão.

Mas pronto, obviamente não vou fumar e o importante mesmo é que entrámos em contagem decrescente para um dos momentos mais felizes de cada Agosto que passo.

Podem pôr as cervejas a gelar no frigorífico; podem recomeçar a agendar os fins-de-semana com cuidado; podem preparar-se para sofrer; podem vibrar, sentir, roer as unhas, pôr o cachecol, chorar; podem gozar os espectáculos, mesmo que sejam mauzitos; podem sonhar; podem alienar-se; podem utilizar os lugares-comuns todos que quiserem: VAI COMEÇAR O CAMPEONATO! Há horas sublimes...

18 agosto 2005

P. S.

Em relação ao post anterior, antes que chovam comentários: claro que o homem tem direito às férias, claro que o facto de ele estar em São Bento ou no Quénia não ia fazer diferença quanto à área ardida. Era - teria sido - apenas uma questão de bom senso, de solidariedade para com as vítimas dos fogos, de sentido de Estado, ou lá como se diz quando convém. Até porque no Quénia o tempo costuma estar bom para safaris noutras alturas do ano. Mas pronto, cada um sabe de si e assim de repente nem vejo razão nenhuma para o primeiro ministro ser diferente...

Eu ouvi!

Juro que ouvi, acabo de ouvir e estou capaz de garantir que passa em directo na televisão. José Sócrates disse «este é o momento de combater os incêndios». «Este» momento? Qual, «este» agorinha, hoje, 19 de Agosto? Mas será que este homem esteve de férias no Quénia enquanto o País ardia?

Que tem a Sport TV a ver com as presidenciais?


Há coisas que só acontecem a quem tem Sport TV. Uma é constatar o quão mau é o serviço monopolístico da TV Cabo. Outra é, por exemplo, ver um documentário sobre combates de boxe míticos. Só hoje aconteceram-me as duas coisas. Interessa mais, agora, falar da batatada.

No centro do documentário só podia estar um homem: Cassius Clay, ou Muhammad Ali, conforme a sensibilidade (isto não está para brincadeiras quanto a alta religião...). Combate para aqui, combate para ali e lá chegámos ao terceiro que teve com Joe Frazier, que ao que parece ficou mesmo Joe para o resto da vida.

O combate do século, a coragem, a bravura, os limites da condição humana, a transcendência do boxe - não discuto os conceitos, mas que foram aplicados por toda a gente que andava naquela história, lá isso foram. Interessa-me mais perceber por que raio me fui eu lembrar, logo ali a meio do combate, de Mário Soares e Cavaco Silva...

Um dos boxeurs desistiu à entrada do último assalto, quando já nenhum deles parecia aguentar-se de pé. O outro, claro, ganhou. Qual terá sido?

À mão